Texto de Julia Hansen sobre o lamentável episódio de 9/6 (anexo e-mail do professor Vladimir Safatle)
Sent: Friday, June 12, 2009 10:16 AM
Caros,
uns dias atrás encaminhei para alguns de vocês o relato de um professor contando a violência policial na situação de greve da Universidade de São Paulo. Se escrevo novamente é porque agora eu quero falar e também por ter visto imagens do Centro de Mídia Independente que são importantes de compartilhar:
e
A diferença dessas imagens com as da televisão/ jornais é que os jornalistas oficiais mostram a superprodução pras massas, quero dizer, mostraram mais o montante de homens e, sobretudo, de automóveis da PM do que os atos individuais. Sem dúvida, numa cidade como São Paulo, faz sentido que os carros sejam o que nos acostumamos o olhar a ver e não os rapazes embaixo dos escudos da polícia.
Pessoas têm me encaminhando discussões dos fóruns dos professores e dos estudantes. Não vi o que os funcionários têm discutido. Sabem, eu estudei 15 dos meus 25 anos na USP. Meus pais, ambos, são professores dessa Universidade. Eu estava na greve de 2002, quando nós, os estudantes da FFLCH, paramos as aulas para pedir por professores e conseguimos uma centena deles depois de 4 meses paralisados. Foram momentos de uma força comovente e confesso que, depois dessa, nenhuma outra greve me interessou muito. Isso porque me parece mesmo que devemos pensar formas de manifestação mais contemporâneas, mas, o que está acontencendo na USP nesse momento é grave e precisa ser colocado em discussão.
O que vou reparando, é que existe dentro da Universidade e fora dela um discurso crescente nos últimos anos de que a greve/ as manifestações de insatisfação social são atos de violência contra a democracia do país. Brasil este que, como se sabe no mundo inteiro, tem nas suas estruturas de poder formas extremamente democráticas e igualitárias que devem ser mantidas. Ordem e progresso.
Sobretudo: como se sabe, todos nós temos um nome. De registro social, também. Então, o que dizer quando a Polícia Militar, chamada para conter os estudantes, funcionários e professores da Universidade pública que se diz a maior do país, retiram da farda seus nomes e identificações?, e na imprensa nada se diz?
Vejam, está nas fotos, os PMs estavam sem identificação:
De tudo, isso é o que me deixa mais indignada. Por quê? Porque reitera a impunidade no Brasil. Impunidade essa que me parece que é o que conhecemos. Mais, quando a PM retira seus nomes comete um crime contra todos os cidadãos. Afinal, fardados e sem nome, são todos um corpo institucional só contra os indivíduos. E a violência, portanto, é um riso na cara de todos, riso esse que ri até de quem não quer ouvir falar nele.
Os professores que andavam dizendo que têm o direito de dar aula mesmo com a ADUSP (associação dos docentes da USP) ou o SINTUSP (sindicato dos funcionários da USP) determinando em assembléia a greve, estavam colocando questões de representabilidade dentro da Universidade. Questões como essas têm crescido nos últimos anos e indicam, além da necessidade de uma re-invenção das manifestações, também uma cisão da insatisfação coletiva. Não vou nem entrar no fato de que a USP a cada ano que passa, principalmente nas áreas de humanidades e artes (que como sabem, não movimentam as finanças) vai sendo transformada numa sucata maior e de que em terra de cego quem tem um olho é rei. Acho que esses professores que questionavam as greves, tinham alguma razão, medo e conforto, mas agora, depois do estado de violência policial (lembrem-se, a PM ainda está na Universidade) que aconteceu nessa terça-feira, continuar com um discurso do 'deixa-disso' é se posicionar ao lado da violência.
Sobretudo porque precisamos lembrar que os discursos que fazemos e aceitamos acabam por justificar e conceber as ações, não só no momento presente como nas bases desse Brasil tão brasileiro e tão democrático. O país, como se sabe, do futuro. O bom mocismo do discurso politicamente correto contemporâneo acaba por amenizar todas as formas de violência (pra não falar na corrupção institucionalizada) e colaborar para o esquecimento. Pensar que as coisas devem continuar como estão, afinal, a ditadura já passou e somos um país de potência econômica, é estupidificar todos os futuros.
Ontem a assessoria de imprensa da reitora lançou um informe oficial:
http://educacao.uol.com.br/ultnot/2009/06/11/ult105u8216.jhtm, no qual afirma, entrementes, que os movimentos de greve são causados por uma parcela da Universidade que é violenta e etc e etc. Pois é, a instituição suga o discurso que lhe parece mais apropriado no momento. É importante, portanto, que outros discursos se façam.
Outro que deu suas opiniões brilhantes nesses últimos dias foi o Datena, para o qual a alcunha de telejornalista não cabe, e enquanto a polícia descia o cassetete na cabeça dos manifestantes, o Datena dizia com as imagens do seu helicóptero que os estudantes 'playboys' se não estavam interessados em fazer o que devem fazer (isto é, estudar) deviam largar as vagas para aqueles "pobres" que precisam delas e as aproveitariam pra conseguir algo da vida. Mais uma vez nesse país, a pobreza é um instrumento para justificar a própria pobreza. E, um discurso como esse é contra todas as instituições públicas. É a mesma coisa que dizer prum paciente que está perdendo o sangue por estar há três horas na fila de espera de um hospital de que se ele não está satisfeito em esperar para perder a perna é melhor ir procurar outro atendimento médico e dar o seu lugar no corredor para alguém que o faça por bem merecer.
Acho que é isso. Obrigada pela atenção, se quiserem, repassem.