segunda-feira, 15 de junho de 2009

USP em guerra??? (parte 5)

cápsula bomba de gás estourada no estacionamento da FFLCH

Mega-longo, mas interessante (e verdadeiro!) - Grifos meus...

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Só existem piquetes porque há um exagero de desrespeito de certos indivíduos  por seus órgãos de representação

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"A conduta e a atitude democrática não fluem de qualquer instinto, mas são frutos de uma aprendizagem difícil e, até mesmo, antinatural porque A DEMOCRACIA, QUASE SEMPRE, É CONSTRUÍDA PELO FREAMENTO DE INTERESSES EGOÍSTAS DE INDIVÍDUOS E GRUPOS.José Mário Pires Azanha.

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Cerca de 97 mil pessoas em mais de um 1.500.000m2 de área edificada: isto dá uma ideia simplificada da USP. Seriam 97 mil verdades, se cada um mantivesse apenas uma. Para agrupar e canalizar tantos pontos de vista e tantas opiniões, e para que cada membro não tente fazer estritamente o que lhe pareça, foram criadas e são mantidas as associações, os órgãos de representação, de funcionários, graduandos, pós-graduandos, docentes.

Algumas pessoas dedicam muito esforço à implementação e aperfeiçoamento da democracia interna da Universidade. Outras, apenas acatam, ainda que duvidem em maior ou menor grau da eficácia e da racionalidade dos órgãos de representação e suas deliberações. Há também quem questione a legitimidade destes órgãos, em vista do número reduzido de pessoas que participam ativamente deles.  E há hoje um número excessivo de membros da comunidade acadêmica que ignoram deliberadamente, afrontam e boicotam sistematicamente as decisões coletivas.

Quando um indivíduo decide isoladamente desacatar e impedir que as decisões coletivas sejam devidamente concretizadas, mais que inviabilizar a atuação de uma dada instituição, está inviabilizando a própria democracia. Está sobrepondo sua opinião particular sobre os argumentos que foram refletidos, elaborados, enunciados, debatidos, selecionados, priorizados, votados ou consensuados nos espaços criados especificamente para isto.

Muitas das pessoas que defendem ideias nos órgãos criados para representá-las, fazem isto em nome do bem comum, e inúmeras vezes defendendo ideias e vantagens abstratas como "autonomia" universitária e "qualidade" de ensino para todos. Conseguem com sua mobilização benéficos públicos que não excluem os que não participaram da sua consecução, e raramente vantagens estritamente pessoais, alem da sensação de dever cumprido. Fazem isto às custas de horas que seriam dedicadas a realizações que rendem frutos individuais tangíveis socialmente reconhecíveis. E muitas das pessoas que desrespeitam os órgãos criados para representá-las, expressam não terem tempo para comparecer quando são convocados para as assembleias da sua categoria. E depois criticam o órgão e as decisões por serem poucos os que deliberam efetivamente. Uma pessoa que pertença a um coletivo complexo como a USP, quando decide se omitir de todas as oportunidades de participação, deixando sempre a cargo dos demais todas as tarefas referentes ao interesse coletivo, se acomoda, e nas atuais circunstancias, age de forma irresponsável

Mas quando essa pessoa insiste em ocupar-se exclusivamente de assuntos de caráter particular e nunca reserva o tempo necessário para dar sua contribuição para o diálogo e a democracia interna, se ademais de não comparecer, este indivíduo boicotar, desqualificar e tentar deslegitimizar a decisão coletiva, ele deixa de ser apenas um peso para os demais e um oportunista, e passa a ser nocivo para o interesse do todo, e para a preservação do principio da democracia e seus mecanismos, e é preciso que as instituições tomem medidas para que este tipo de comportamento não comprometa o interesse da USP como um todo.

Os canais de dialogo são criações humanas, e, portanto são imperfeitos. 
Assim como as pessoas que atuam nos órgãos de representação. Alguns professores e alunos que merecem todo o meu respeito informam que ha grupos de interesse que perturbam a democracia interna em diferentes órgãos, usando expedientes antiéticos para manipular informações, assembleias e resultados. Pessoalmente nunca identifiquei isto, o que eu vejo repetidamente, são sempre os mesmos lutando pela universidade e por verbas para educação publica, tentando proteger seus salários contra a permanente ameaça de arrocho, e defendendo interesses óbvios, mas legítimos, ainda que corporativos. E também pessoas como eu, sem maiores ambições, que querem apenas não se omitir, estar mais do lado das soluções que ser parte dos problemas.

Conheço pessoalmente vários professores mobilizados, que "perdem" seu tempo engrossando a massa de manifestantes que defendem de várias formas o bem comum. São professores que, por exemplo, comparecem periodicamente na Alesp quando se vota o orçamento do estado de SP, para defender verbas e condições no ensino público. Professores que se expõem às críticas de informados e desinformados, ficando lado a lado com os que nunca são homenageados senão com os adjetivos de "baderneiros" "miltontos", "neo-vermelhos" etc. São os mesmos professores que permanentemente cuidam para que nas aulas e pesquisas na Faculdade de Educação o foco nunca se distancie da realidade nacional, das necessidades presentes do ensino público, das escolas de gente pobre. Não apenas se mobilizam politicamente, mas têm trabalhos diretos em comunidades exploradas, por exemplo, em Diadema ou na Zona Leste, ou com crianças e adolescentes em situação de rua. Mencionando três nomes apenas aqui, estou sendo injusta com todos os outros, cujas atuações concretas pelo ensino público eu não me recordo. Cito apenas os primeiros que me vêm à mente, professores a favor da greve, e contra a presença da PM e pela renuncia de quem criou as condições para que a PM entrasse. São mestres que mais que transmitir informações, ensinam realmente, inspiram, nos formam para toda a vida:
  • Profa Dra Lisete Arelaro, 
  • Prof Dr. Marcos Ferreira, 
  • Prof Dr. Elie Ghanem
Nunca vi evidencia de conspiração, mas, pode ser, não duvido das pessoas que relatam sobre isto, pelo contrário, são pessoas pelas quais tenho enorme estima pessoal, que eu conheço ha muitíssimos anos, e merecem todo meu respeito. Se for verdade, então as pessoas que viram, têm o dever moral de divulgar isto, de se articularem para impedir que o grupo dominador se apodere dos espaços de decisão da USP. Não podem dar as costas e criticar a greve abandonando as instituições e suas 
deliberações nas mãos de pessoas especializadas em manobras. Isto inviabiliza o bom funcionamento da USP, agrava os problemas. Não podemos compactuar com professores que, ao invés de se mobilizarem por uma saudável democracia interna, ao verem os espaços de representação serem usurpados, dizem - candidamente - que têm coisas melhores para fazer, "papers", pesquisas, consultorias, etc.

A educação pública de nível superior precisa ser defendida, para que mais este direito não seja cada vez mais apenas uma mercadoria, à qual cada vez menos pessoas têm acesso, como já acontece com a educação de qualidade nos níveis elementar e médio, a saúde, a segurança pública, o transporte, etc.

E isto exige que a comunidade USP como um todo participe ativamente, em caráter permanente e não apenas a cada ataque sofrido, como o decreto de Serra que atentava contra a autonomia em 2007, que foi derrubado a tempo, ou a Univesp, ou a PM.  As greves até apagam certos incêndios, mas não vencem os incendiários. Os paulistas de mais de 30 anos viram como foram sucateadas nossas escolas estaduais, antes consideradas de qualidade, por não terem sido devidamente defendidas.
Uma agenda que não prevê participação nos espaços de decisão coletiva e ou discordar de membros dos órgãos de representação não justificam esperarmos sentados até que a serra elétrica do neoliberalismo acabe com as universidades estaduais também.

E um penúltimo detalhe: para o bem da USP e do ensino publico, e em nome da coerência, seria mais racional e efetivo, que boicotar e criticar por trás, de longe, fora do alcance de qualquer compromisso, as decisões da ADUSP, do SINTUSP e do DCE, se articular com os que discordam, já que supostamente, são maioria, e agir. Começando por renunciar aos aumentos de salários e outros benefícios decorrentes das atividades de "greveiros" "piqueteiros" "radicais" "baderneiros". E doar proveitos já auferidos para uma causa eleita coletivamente. O último detalhe é: na minha opinião, se os professores em geral e funcionários em massa participassem e defendessem as causas comuns, permanentemente, em vez de ficar cuidando estritamente de agendas visando o particular, não haveria necessidade de tanta greve e tanto barulho, muito menos deste tipo de piquete radical, que só aparece na mídia se conseguirem fazer vir à tropa de choque. É porque muitos desacatam, afrontam o coletivo, boicotam, ridicularizam, desqualificam, e poucos se interessam por causas (certas ou erradas) comuns, que estes poucos não têm opção senão "botar pra quebrar", porque se se limitarem aos espaços que não incomodam ninguém... Aí que o ensino vira mercadoria e os salários viram poeira.
Lolita Sala

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"Um Estado que se declare exaurido para a provisão de recursos para o ensino gratuito abdica de sua condição de Estado democrático. A educação para um certo padrão de convivência social e de participação política é tarefa essencial na construção da sociedade democrática. Onde encontrar recursos para a execução dessa tarefa é problema de estadistas e não de técnicos em orçamento.

A conduta e a atitude democrática não fluem de qualquer instinto, mas são frutos de uma aprendizagem difícil e, até mesmo, antinatural porque A DEMOCRACIA, QUASE SEMPRE, É CONSTRUÍDA PELO FREAMENTO DE INTERESSES EGOÍSTAS DE INDIVÍDUOS E GRUPOS. Se quisermos construir uma sociedade democrática, o Estado deve ser a instituição educadora por excelência no nível básico e de maneira alguma ser ausente do ensino superior.” José Mário Pires Azanha.

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